quarta-feira, 19 de maio de 2010

A curva.

Em uma madrugada muito fria de outono, a garoa fina deixava tudo mais gelado na rua e pela janela ela admirava as gotículas d’água rodando com o vento. Lá fora alguém andava rápido sob um guarda-chuva e atrás do vidro ela imagina como a cama estaria quente e quão bom seria sentir o chá quente descendo garganta abaixo, enquanto se afundava nos travesseiros.
Uma rajada de vento entrou pelo vão da janela, seus ombros encolherem, esfregou as mão e fechou a cortina deixando as gotículas flutuantes para trás. Bebeu o chá, já embaixo das cobertas e sentiu o conformo morno se espalhando pelo corpo, pousou a cabeça no travesseiro, encaixou seu corpo ao dele que dormia há alguém tempo. Adormeceu.
Sonhou que derrubava talheres repetidamente, não conseguia mantê-los firmes em suas mãos, andava de um lado para o outro na cozinha e todo movimento que fazia algo ia ao chão. Acordou.
- Sonho estranho - pensou enquanto tirava o braço dele de cima de seu peito.
Estava acomodada novamente quando algo metálico caiu na cozinha.
- Talheres!
Sentou na cama, os olhos atentos e o coração batendo cada vez mais rápido.
Ouviu passos hesitantes pelo corredor, a luz da cozinha foi acesa e apagada rapidamente
- Louis! Louis!
Sacudiu seus ombros.
- O quê? Perguntou sonolento.
- Tem gente aqui dentro.
- Claro que tem, nós somos gente. Dorme, Françoise.
Virou para o outro lado ignorando-a.
- É sério, Louis, ouve!
A chave girou lentamente na porta da frente, Louis pulou da cama.
- Ouviu?
- Claro que ouvi, não te acordei por acordar. Tem gente aqui dentro.
Estavam agitados, se moviam rápido, mas cuidadosamente dentro do cômodo, olhavam-se espantados sem saber o que fazer.
- A arma! Onde está a arma? Perguntou Louis.
Françoise pegou a arma no fundo falso da gaveta, suas mãos estavam tremulas, nos olhos escuros lágrimas se acumulavam embaçando sua visão.
- Eu vou na frente, você fica atrás de mim com a arma, seja lá o que for, se vier em nossa direção você atira.
Abriu a porta do quarto tentando não fazer barulho, Françoise suspirou como quem toma coragem, mantinha a arma na altura do nariz, cano apontando para o teto, as mãos ainda tremulas. Andou praticamente grudada em Louis pelo corredor escuro, as batidas de seus corações eram audíveis.
Entraram na sala e pararam, só o tórax se movia freneticamente.
Perto da porta estava o homem dando impressão de que estava de saída.
Louis acendeu a luz.
- Quieto aí!
O homem se virou e encarou o casal.
- Pierre?
- Sim. Disse Pierre com um sorriso nos lábios.
- Como você entrou aqui? Perguntou Louis.
- Com a minha chave. Françoise respondeu caminhando até Pierre.
- O quê?!
Louis indagou incrédulo, a boca e as idéias em curva.
No quinto andar o menino adentra o quarto dos pais e pergunta assustado:
- Isso foi um tiro?

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Racinha!

E que fique registrada a minha indignação com o mundo e com as pessoas. Não é de hoje que eu não gosto de humanos, uma espécie que se autodestrói não merece ser tratada com alguma pompa. Ninguém é herói, santo ou missionário por completo, existe em cada um uma semente de mal que faz a destruição, a tristeza e o sofrimento virarem prazer e se deleitam ao ouvir as desgraças alheias
Não desviem água dos reservatórios, nem inundem meia Amazônia, não apodreçam os oceanos com petróleo, nem matem pássaros, peixes, anfíbios. Matem a si próprios, extingui-se a raça e se da por acabada a destruição, dois coelhos numa cajadada só.
Simples, prático, fácil de fazer.